Vanessa Caroline Silva Santos
"(...) Tem mais, como a senhora é trabalhadora, pode abrir uma roça aqui, neste terreno fresco, melhor que o pedregulho da estrada. Do tamanho que suas forças derem.
NETO, Euclides. A Enxada e a mulher que venceu o próprio destino. pág, 14.
Segundo Frei Betto (2006) “ter
escapado da pobreza não é prêmio, é ter responsabilidade para com aqueles que
não tiveram a mesma sorte”, nesse sentido, entendemos agora a função do autor
no seu logos e no seu chronos como sujeito agente da mudança.
Dessa maneira, seja no trabalho de base com os moradores da Fazenda Modelo ou com a personagem
Albertina em A Enxada, mais uma vez
ratifica-se o conceito de Candido sobre o papel do escritor para a sociedade.
Entretanto podemos entender dois
lados da moeda nesse romance. Por um lado temos Albertina com sua enxada –
signo da sua luta no tocante à reforma agrária e que veicula também a sua
quebra com o padrão “sapatinho de cristal” – e a terra dada pelo Seu Manduca
para que ela lavorasse e vivesse do que fosse produzindo, o que nos leva a
refletir sobre certa posição paternalista de Seu Manduca.
Contextualizando, essa posição de
poder se dá quando é dada a Albertina o direito de posse sobre um canto de
terra sem cultivo onde a personagem monta acampamento. Isto seria também
entendido como a ideia cerne da Reforma Agrária, mas com repercussões
diferentes onde a “invasora” não é enxotada. Ou seja, implicitamente, podemos
entender essa relação entre doador e beneficiado como uma relação de paternalismo
onde não há nada de revolucionário no ato de Seu Manduca.
Já foi dito aqui que Euclides Neto
criou um projeto pioneiro, Fazenda Modelo, a fim de dar lugar para que o povo
carente de um teto e um chão para lavrar pudesse sair dos contingentes de
miséria da cidade de Ipiaú. Entende-se assim que o autor fez refletir em seu
texto de A Enxada, com a personagem Albertina e Seu Manduca, as relações
sociais que teve enquanto sua experiência com o projeto supracitado. Logo,
partindo de um ponto de vista indutivo, podem-se elencar esses fatores que
confirmam o paternalismo presente nas relações dos sujeitos ora citados no
romance.